domingo, 19 de novembro de 2017

Artigo: Lukács e a sociologia


Resumo: José Paulo Netto, comentando a trajetória de György Lukács, evidencia a presença de uma crítica enfática à fragmentação acadêmica que gerou as ciências particulares burguesas. Destas disciplinas, que se afirmam no período da decadência ideológica, a que recebeu mais considerações críticas do filósofo húngaro é a sociologia. Netto também destaca a importância do legado lukasciano, ao explicitar a ontologia do ser social de Marx, para contribuir com a ciência social unitária.

Palavras-chave: Lukács, decadência ideológica, sociologia, ciência social, ontologia social


NETTO, J. P. Lukács e a sociologia. In: Contexto, São Paulo, n. 1, p. 61-77, nov. 1976.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Trechos: Os dilemas do conceito sociológico de classes sociais



O conceito weberiano de classe social como situação de mercado

por Ranieri Carli

Em estado nascente, a sociologia é chamada para catalogar os problemas concretos retirando-lhes exatamente a concretude categorial. As guerras imperialistas foram uma ilustração desse parcelamento que pode ser multiplicada inúmeras vezes. Weber também elabora uma "hipótese modesta" acerca das classes sociais. De novo, o conceito não é a síntese de determinações históricas; é somente um agregado de traços formais. O conceito weberiano de classe social lembra certos aspectos de Simmel para as classes subalternas que vimos no capítulo passado; o destino individual é valorizado para se considerar a situação classista. Um indivíduo encontra-se em uma determinada situação de classe de acordo com as oportunidades de mercado que lhe são oferecidas. Segundo Weber, por exemplo, a disposição de dinheiro pode ser trocada no mercado por terras ou pelo trabalho alheio; assim, no primeiro caso, a situação de classe seria a do arrendatário; no segundo, a do empresário. O sujeito da ação poderá optar: decide-se por uma certa situação de classe ou por outra; o ator social está com as oportunidades de mercado à disposição. Weber define que "essa é sempre a conotação genérica do conceito de classe: que o tipo de oportunidade no mercado é o momento decisivo que apresenta condição comum com a sorte individual. 'Situação de classe', nesse sentido, é, em última análise, 'situação de mercado' " (Weber).

A análise do conceito de classe social de Weber precisa estar atenta para alguns pontos. Antes de tudo, 1) a responsabilidade por estar em determinada classe social é atribuída ao sujeito; as oportunidades estão dadas no mercado e cabe ao sujeito aproveitá-las da maneira que lhe convém, conforme sua valoração subjetiva. Os homens apresentam-se em igualdade de condições ao mercado, é dada a largada, as chances são oferecidas e veremos quem terá sucesso ao fim. A superficialidade do conceito weberiano não nos diz absolutamente nada sobre as condições concretas de que partem os homens, sobre as contradições do processo produtivo, as quais já determinam sob que condições os homens chegarão ao mercado. Marx afirma que a produção determina a distribuição não só por realizar os objetos que serão distribuídos, mas por condicionar as formas particulares de participação no mercado; um indivíduo que participe da produção por meio do trabalho assalariado, participa da distribuição por meio do salário. Significa que a participação da burguesia na distribuição de bens e serviços é de todo distinta da participação do trabalhador. O sociólogo de Heidelberg não afirmaria jamais que, acima de tudo, a inserção no processo produtivo determina a posição na distribuição e troca de mercadorias. É similar à mitologia indiana narrada por Mészáros que não se indaga acerca dos fundamentos que sustentam a tartaruga cósmica que sustém o elefante que, em seu turno, ampara o mundo nas costas.

Além de que, 2) o conceito weberiano une inextrincavelmente a situação de classe à situação de mercado. Não há classe quando não há mercado; as várias situações de classe estão sendo distribuídas diariamente no mercado e apenas nele. O destino casual no mercado prescreve o pertencimento de classe. Os homens que não estão livres para ir ao mercado não representam um classe:

aqueles cujo destino não é determinado pela oportunidade de usar, em proveito próprio, bens e serviços no mercado, isto é, os escravos, não são, porém, uma 'classe', no sentido técnico da expressão. São antes um 'estamento' (WEBER, M.).

A conjunção absoluta entre mercado e classe continua a seguir: 

segundo nossa terminologia, o fator que cria 'classe' é um interesse econômico claro, e na verdade, apenas os interesses ligados à existência do 'mercado' (WEBER, M).

Logo, as classes sociais são um espaço societário fluído: de acordo com a nossa sorte no mercado, estaremos em determinada classe hoje e em qualquer outra amanhã. Deduz-se que os trabalhadores terão a opção de transformar-se em capitalistas assim que o humor do mercado lhes beneficiar.

(CARLI, Ranieri. György Lukács e as raízes históricas da sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013, p. 94-96).


= = = = = =


Ricardo Antunes e a "classe-que-vive-do-trabalho"


por Sergio Lessa

No interior do bloco teórico que defende a centralidade do trabalho contra a vaga neoliberal e o irracionalismo pós-moderno, Ricardo Antunes tem sido importante na divulgação das teses contrárias ao fim do emprego, do trabalho e das classes sociais. Seus textos se destacam pelo bom combate contra muitas das teses conservadoras e contrarrevolucionárias; contudo, uma das suas teses centrais, a de que a classe trabalhadora teria se convertido no que denomina de "classe-que-vive-do-trabalho", jamais deixou de ser polêmica.

Segundo Antunes, as mutações do "mundo do trabalho" teriam tornado a distinção entre proletários e assalariados de Marx por demais "rígida" para expressar adequadamente o que seria a classe trabalhadora hoje. Explicitamente, "como há uma crescente imbricação entre trabalho produtivo e improdutivo no capitalismo contemporâneo", para "reconhecer que o mundo do trabalho vem sofrendo mutações importantes" seria imprescindível um conceito como o da classe-que-vive-do-trabalho (nas citações desta obra, os numerosos itálicos são sempre de Antunes). Esta "rigidez" de Marx, por sua vez, teria por fundamento o seu próprio conceito de trabalho, o qual, para Antunes, necessitaria de uma "ampliação":

A principal mutação no interior do processo de produção de capital na fábrica toyotizada e flexível (...) [diz Antunes] se encontra (...) na interação crescente entre trabalho e ciência, trabalho material e imaterial, elementos fundamentais no mundo produtivo (industrial e de serviços) contemporâneo (ANTUNES, R).

Tal "interação crescente entre trabalho e ciência, trabalho material e imaterial" levaria a uma situação na qual, numa posição muito próxima a Lojkine,


pelo desenvolvimento dos softwares, a máquina informacional passa a desempenhar atividades próprias da inteligência humana. Dá-se então um processo de objetivação das atividades cerebrais na maquinaria, de transferência do saber intelectual e cognitivo da classe trabalhadora para a maquinaria informatizada (ANTUNES, R).

Postular que um computador ou máquina computadorizada seja portador, ou capaz de absorver, qualquer "saber intelectual e cognitivo" contém, obviamente, algum exagero. Não menos descabido é postular que "na maquinaria" "informacional" possa ocorrer qualquer "objetivação" - o que implicaria ser a máquina capaz de teleologia. Todavia, é nessas teses que Antunes se apoia para prosseguir argumentando que a tendência à redução dos "níveis de trabalho improdutivo dentro das fábricas" ("A eliminação de várias funções como supervisão, vigilância, inspeção, gerências intermediárias etc.") significa "transferir e incorporar ao trabalho produtivo atividades que eram anteriormente feitas por trabalhadores improdutivos" (Antunes).

Antunes, nestas passagens, incorporou muito das teses que, de Mallet a Lojkine, velam ou cancelam as distinções entre o trabalho manual e o intelectual, entre o trabalho produtivo e o improdutivo. Que o capitalista procura colocar nos ombros do proletariado, além das tarefas da produção, também as tarefas de "supervisão, vigilância, inspeção, gerências intermediárias etc." - e que o faz para cortar custos e ampliar a extração de mais-valia, é um fato indiscutível. Isto, todavia, não significa que haja "incorporação" - ou "imbricação" - do trabalho improdutivo ao produtivo. O fato de um operário ser obrigado a cumprir tarefas produtivas e improdutivas não as faz idênticas, nem muito menos significa que uma incorpore a outra. Significa apenas que o trabalhador está sendo mais intensamente explorado.

O que distingue o trabalho produtivo do trabalho improdutivo é a função social de produzir (ou não) mais-valia, e não o indivíduo que os executa. No início do capitalismo e, hoje, nas pequenas empresas ou negócios nascentes, era e é comum o próprio burguês executar funções de vigilância, superintendência, supervisão, inspeção etc. que, com o crescimento do capital (em se tratando dos pequenos ou nascentes "empreendimentos") ou com o desenvolvimento do modo de produção capitalista, são transferidas aos trabalhadores improdutivos. Esse fato não torna o burguês, naquelas cricunstâncias iniciais dos empreendimentos ou do capitalismo, um trabalhador produtivo, mas apenas um burguês cujo desenvolvimento ainda não foi capaz de libertá-lo destas funções. Igualmente, quando o burguês pode obrigar o proletariado a vigiar a si próprio, não significa que a vigilância esteja se identificando à produção e se tornando atividade produtiva, significa apenas que o burguês, nas novas condições, pode conseguir o mesmo resultado pagando um salário, em vez de dois.

É esta desconsideração das funções sociais que distinguem os trabalhos produtivo e improdutivo que possibilita a Antunes postular que hoje não haveria mais uma distinção "tão rígida" quanto em Marx entre os trabalhadores produtivos e improdutivos e, por extensão, entre o proletariado e os demais assalariados. E é esta mesma desconsideração para com a função social distinta do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo, independentemente de quem os execute, que leva o autor a manifestar alguma proximidade com Negri, Hardt e Lazzarato e a adotar o conceito de trabalho imaterial como elemento importante na sua proposta de uma "noção ampliada de trabalho" (Antunes). Postula que "no universo das empresas produtivas e de serviços" ocorreria "um alargamento e ampliação das atividades denominadas imateriais" e cita Lazzarato para afirmar a centralidade do trabalho imaterial na "organização" da "relação produção-consumo" e, ainda, para produzir "antes de tudo a própria relação do capital" (Antunes). Se o "trabalho imaterial" produz a "própria relação do capital", não há porque se duvidar de que, para Antunes, o trabalho imaterial seria uma característica decisiva, nada marginal, da sociabilidade contemporânea.

Antunes alega ter reelaborado o conceito de trabalho imaterial. Isso deve ser correto. Em nenhum dos seus textos encontramos a adesão a algumas das teses fundamentais de Negri, Hardt e Lazzarato. Contudo, o autor não se detém a explicitar em que teria consistido esta reelaboração e fica-se com a forte impressão de que o trabalho imaterial a que Antunes se refere não vai além do trabalho intelectual, como nesta passagem:


(...) frequentemente o trabalhador [é forçado] a 'tomar decisões', 'analisar as situações', oferecer alternativas frente as ocorrências inesperadas. O operário deve converter-se num elemento de 'integração cada vez mais envolvido na relação equipe/sistema', expressando uma 'capacidade de ativar e gerar a cooperação produtiva'. O trabalhador deve converter-se em 'sujeito ativo' da coordenação de diferentes funções da produção, em vez de ser simplesmente comandado. O aprendizado coletivo se converte no principal aspecto da produtividade (ANTUNES, R.).

Que o "aprendizado coletivo" se converta "no principal aspecto da produtividade", é, provavelmente, uma imprecisão equivalente a da tese da absorção pela máquina "do saber intelectual e cognitivo", ou da "incorporação" do trabalho improdutivo pelo produtivo. Que, no aumento de produtividade, o "aprendizado coletivo" seja mais importante que o aporte de capital, por exemplo, é algo a ser demonstrado. Todavia, todas as novas atividades que, segundo Antunes, caberiam ao operário nas novas condições da reestruturação produtiva estariam englobadas no que Marx denominou, em O Capital, de trabalho intelectual, como veremos na Parte II. Não fica claro por que Antunes optou por trabalho imaterial quando o conceito de trabalho intelectual possivelmente lhe servisse melhor. Talvez a razão esteja em que a expressão trabalho imaterial abre espaço semântico para que o seu "conceito ampliado de trabalho" incorpore a fusão entre a máquina e o saber, entre o "trabalho imaterial" e o "trabalho material", entre o trabalho improdutivo e o produtivo.

Na interpretação que aqui estou oferecendo, as novas dimensões e formas de trabalho vêm trazendo um alargamento, uma ampliação e uma complexificação da atividade laborativa, de que a expansão do trabalho imaterial é exemplo (ANTUNES, R.).

Em que sentido a "atividade laborativa" estaria se "alargando", se "ampliando" e se "complexificando"? Já que o trabalho imaterial "produz a relação do capital", continua Antunes,


(...) talvez se possa dizer que o dispêndio de energia física da força de trabalho está se convertendo, ao menos nos setores tecnologicamente mais avançados do processo produtivo, em dispêndio de capacidades intelectuais (ANTUNES, R.).

Há uma passagem de O Capital na qual Marx faz referência ao "trabalho" como "dispêndio de força de trabalho do homem no sentido fisiológico" (Marx), referindo-se aqui ao trabalho manual, intercâmbio orgânico com a natureza, produtor de valores de uso. O trabalho, nesta acepção de categoria fundante, que produz "o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social desta" (Marx) é, sempre e necessariamente, um trabalho manual, pois "(...) como o homem precisa de um pulmão para respirar, ele precisa de uma 'criação da mão humana' para consumir produtivamente forças da natureza" (Marx). Para Antunes, todavia, a "ampliação" do trabalho estaria acontecendo na medida em que o trabalho manual ("dispêndio de energia física") estaria se convertendo em trabalho intelectual ("dispêndio de capacidades intelectuais"). Ou, em outras palavras, que o trabalho intelectual estaria tendencialmente ocupando a função social do trabalho manual.

Diferente do passado, no trabalho dos nossos dias, "talvez", "ao menos nos setores tecnologicamente mais avançados do processo produtivo", o "dispêndio de energia física da força de trabalho está se convertendo (...) em dispêndio de capacidades intelectuais". O emprego da partícula "talvez" permite ao texto sugerir uma hipótese mais que afirmar uma tese; "ao menos", na passagem "ao menos nos setores tecnologicamente mais avançados do processo produtivo", torna ambígua a amplitude da sua validade. E a expressão "dispêndio de energia física da força de trabalho" pode tanto significar o trabalho manual que realiza o intercâmbio orgânico com a natureza, no sentido marxiano, como também o trabalho manual do setor de serviços. Fica-se em dúvida do significado preciso das teses de Antunes. Em meio a tal imprecisão, talvez, seja razoável compreendê-las, no contexto da "ampliação" da categoria trabalho proposta pelo autor, como a postulação de uma hipótese: a atividade intelectual estaria se convertendo em trabalho, e este, por sua vez, estaria incorporando, para além do intercâmbio homem/natureza, também as atividades intelectuais. Ou, então, que o trabalho manual estaria se convertendo em trabalho intelectual, incorporando atividades de concepção e controle. Ou, ainda, que o trabalho intelectual estaria substituindo o trabalho manual. Como, de fato, poder-se-ia compreender de outra forma a tese de que "o dispêndio de energia física da força de trabalho está se convertendo (...) em dispêndio de capacidades intelectuais"?

Seja qual for a interpretação dessa passagem, com a ampliação do conceito de trabalho necessariamente ampliar-se-ia também o conceito de trabalhador pela adoção do novo critério, uma "nova chave analítica", para a determinação das classes sociais:

a chave analítica para a definição de classe trabalhadora é dada pelo assalariamento e pela venda da sua própria força de trabalho. Por isso a denominamos classe-que-vive-do-trabalho, uma expressão que procura captar e englobar a totalidade dos assalariados que vivem da venda de sua força trabalho (ANTUNES, R.).

Antunes não está sozinho na postulação desta tese. Ainda que suas posições não possam ser simplesmente identificadas com as teses de Aglietta, de Belleville, de Braverman e até mesmo de um Castel, também é inegável uma convergência entre eles ao considerarem que o nódulo da organização da sociedade passa a ser o assalariamento. Para todos estes autores é a distinção entre assalariados e não assalariados o decisivo na diferenciação entre os, digamos, agentes sociais.

Como já comentamos ao examinarmos Braverman, Antunes também não tem como escapar das inúmeras dificuldades deste critério. Já que o assalariamento contém em seu interior classes sociais distintas e atividades que correspondem a funções sociais muito diferenciadas; como até mesmo gestores do capital são, em larga medida, assalariados - e não necessariamente recebendo elevados salários - a nova "chave analítica" proposta por Antunes é fonte de inúmeras dificuldades.

A primeira delas é a carência de fundamento para a sua afirmação de que o "proletariado industrial" seria o "núcleo principal" da "classe-que-vive-do-trabalho". O que concederia essa posição privilegiada ao "proletariado industrial" em relação aos outros assalariados? O que concederia essa posição privilegiada ao "proletariado industrial" em relação aos outros assalariados? Segundo Antunes, seria o fato de produzir "diretamente mais-valia e participa[r] diretamente do processo de valorização do capital" (Antunes). Esta, todavia, é uma característica que o proletariado industrial compartilha com todo e qualquer trabalhador produtivo, seja ele um proletário, um trabalhador intelectual ou empregado nos serviços, como veremos no próximo capítulo. Por isso, a tese de que o "proletariado industrial" seria o "núcleo central" da classe-que-vive-do-trabalho não pode ser justificada pelo fato de ser produtor de mais-valia e a afirmação termina sendo apenas uma manifestação da convicção pessoal do autor.

É possível que esta carência de um fundamento ontológico ao papel de "núcleo principal" do "proletariado industrial" no interior da "classe-que-vive-do-trabalho" se relacione à sua concepção segundo a qual o decisivo no mundo em que vivemos não mais seria a antinomia proletariado/burguesia, mas, sim, a "confrontação" entre os assalariados e os capitalistas, entre o "trabalho social total e o capital social total" (Antunes). Nessa concepção, importância menor, se é que há alguma, teria a distinção entre o proletariado e os outros assalariados.

A segunda inconsistência no interior do próprio conceito de "classe-que-vive-do-trabalho" é sua afirmação da existência de um "proletariado de serviços".


Tem sido um tendência frequente - diz Antunes - a redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado, herdeira da era da indústria verticalizada. Esse proletariado se desenvolveu intensamente na vigência do binômio taylorismo/fordismo e vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital, o desenvolvimento da lean production, a expansão ocidental do toyotismo e das formas de horizontalização do capital produtivo, a flexibilização e desconcentração (e muitas vezes desterritorialização) do espaço físico produtivo. (...) Há, por outro lado, um enorme incremento do novo proletariado fabril e de serviços, que se traduz pelo impressionante crescimento, em escala mundial, do que a vertente crítica tem denominado trabalhado precarizado. São os 'terceirizados', subcontratados, part-time, entre tantas outras formas assemelhadas, que proliferam em inúmeras parte do mundo (ANTUNES, R.).

Poucas páginas antes, Antunes, como vimos, definira o proletariado como "núcleo principal" dos trabalhadores produtivos e, na mesma página, define serviços como "trabalho improdutivo". Como seria concebível definir o proletariado como "núcleo central" dos trabalhadores produtivos e, concomitantemente, afirmar-se a existência de um "proletariado de serviços", sendo os serviços definidos como trabalho improdutivo? Se o proletariado realiza, por definição, o trabalho produtivo, e os serviços, o trabalho improdutivo, na definição de Antunes não há espaço para um "proletariado de serviços". Nos termos propostos pelo autor, um proletariado de serviços é uma contradição.

Há, ainda, uma terceira dificuldade. Em anexo a Os Sentidos do Trabalho, Antunes pondera que os gestores do capital, ainda que recebam "salários altíssimos", "evidentemente" ,"não são assalariados" e por isso estão excluídos da classe trabalhadora" (Antunes). Tem ele toda razão se quer dizer, com isso, que a função social de tais gestores é ontologicamente distinta da dos proletários. Mas não tem razão ao dizer que eles não seriam "evidentemente" assalariados. Assalariados são aqueles que, nas palavras de Antunes, "vendem a sua própria força de trabalho" em troca de um salário: um gestor assalariado é tão assalariado quanto um proletário.

Se dermos razão a Antunes e aceitarmos que os gestores do capital que recebem "salários altíssimos" não seriam assalariados, teríamos então um novo e insolúvel problema nas mãos. O de determinar qual seria o salário que tornaria um indivíduo assalariado e qual outro salário que faria quem o recebe "evidentemente" um não assalariado. Como os salários apenas podem se diferenciar quantitativamente, teríamos que estabelecer qual o limite que, uma vez alcançado, faria com que um centavo a mais fizesse de quem o recebe um não assalariado. Tarefa evidentemente impossível, pois há recebedores de elevados salários que são gestores, mas temos também outros que recebem salários bem menores e que não deixam por isso de ser personificações do capital. A hierarquia das fábricas, da construção civil ou dos agrobusiness, para ficarmos apenas com os exemplos mais evidentes, está repleta de tais casos.

Salientemos que estas últimas dificuldades do critério de assalariamento como decisivo para a delimitação das classes sociais são muito semelhantes às já enfrentadas por Braverman, como vimos acima. Para ele, os salários, a partir de um dado patamar, seriam "participação no excedente produzido" e não a venda da força de trabalho. O que, tal como em Antunes, coloca a questão de como delimitar o patamar a partir do qual salário seria "participação no excedente produzido" e não na venda da força de trabalho.

A centralidade do proletariado, o reconhecimento dos serviços como sendo também em parte composto por trabalho produtivo e a distinção entre assalariados proletários e assalariados não proletário, questões decisivas para as teorizações de Antunes, apenas podem ser solidamente fundamentadas pelo critério ontológico que distingue classes sociais, não pelo salário, mas pela função social que exercem: com isto, contudo, estaria imediatamente revogada a nova "chave analítica" proposta por Antunes e nem faria mais sentido a categoria "classe-que-vive-do-trabalho".


(LESSA, Sergio. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2011, p. 80-89)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Trecho: A fé de Keynes no capital



Keynesianismo: conectando o fetichismo da técnica e a lógica utilitarista-mecanicista (racionalismo formal) com a fé na redenção moral e social-liberal da humanidade (neoiluminismoem 2030.


por István Mészáros

Nas últimas décadas, os intelectuais se intimidaram em admitir a essência de classe em suas teorias e posturas ideológicas. Lançando um olhar para a dramática mudança ocorrida no mapa social do mundo entre 1917 e 1949 – isto é, entre o início da revolução russa e a vitória da revolução chinesa -, preferiram buscar a segurança reconciliatória, negando não somente a existência dos fenômenos (outrora claramente questionados, mas agora felizmente ultrapassados) do imperialismo, exploração, capitalismo, etc., e mesmo de classes e conflitos de classes.

Keynes não utilizou tais estratagemas ideológicos defensivos. Totalmente convicto de que a ordem dominante manteria para sempre seu controle sobre tudo o que realmente importava, não hesitou em declarar com condescendente confiança:

Quanto à luta de classes como tal, meu patriotismo local e pessoal, como os de qualquer um, exceto poucos desagradáveis entusiastas, liga-se a me próprio ambiente. Posso ser influenciado pelo que me parece ser a justiça e o bom senso, mas a guerra de classes vai me encontrar do lado da ‘burguesia educada’ [KEYNES].

Assim, aberta e desafiadoramente, Keynes assumiu em relação a tudo uma posição ideológica altamente partidária. Agora, se considerarmos os princípios orientadores de sua teoria, que ele formula a partir de um ponto de vista ideológico tão firmemente comprometido, descobriremos que, apesar de suas confiantes projeções de uma solução feliz para os problemas e dificuldades cuja existência é forçado a admitir pelo impacto da crise econômica mundial de 1929-33, sua concepção geral não nos conduz a lugar algum. Keynes apresenta a mais rígida e dogmática separação entre o avanço material-produtivo ("a solução do problema econômico, em sua terminologia) e a melhoria das condições da existência humana em todos os aspectos, conforme as potencialidade dos objetivos conscientemente adotados.

Keynes apresenta uma racionalização quase inacreditável até da pilhagem colonial britânica em termos de "juros compostos". Eis como defende a sua causa:

O valor dos investimentos britânicos no exterior atualmente é avaliado em cerca de 4 bilhões. Isto nos proporciona uma renda à taxa de cerca de 6,5%. A metade disso trazemos para casa e desfrutamos; a outras metade, 3,25%, deixamos acumulando no estrangeiro a juros compostos. Algo assim vem ocorrendo há cerca de 250 anos. Calculo que o início dos investimentos britânicos no exterior esteja no tesouro que Drake roubou da Espanha em 1580. [O que está muito certo, é claro, pois a Espanha o roubara das suas colônias]. [...] A rainha Elizabeth viu-se com cerca de 40 mil libras na mão. as quais ela investiu na Levant Company - que prosperou. Com os lucros da Levant Company, a East India Company foi fundada, e os lucros desta grande empresa foram a base dos investimentos subsequentes da Inglaterra no exterior. Essas 40 mil libras, acumulando-se a juros compostos de 3,25%, correspondem aproximadamente ao volume real dos investimentos da Inglaterra no exterior em várias datas, e realmente atingiriam hoje o total de 4 bilhões de libras, que já citei como sendo o que representa nossos atuais investimentos no exterior. Portanto, cada libra que Drake trouxe, em 1580, corresponde agora a 100 mil libras. Este é o poder dos juros compostos. [KEYNES]

Lendo-se tais "argumentos" e as "provas" que os apoiam, não se sabe bem se é o caso de rir diante de seu nível de penetração "científica" ou de chorar diante do fato de que algumas pessoas possam realmente levá-los a sério. A autoconfiante cegueira ideológica de um importante intelectual burguês dificilmente poderia encontrar uma forma de manifestação mais espalhafatosa.

Keynes descreve o processo de reprodução produtiva de uma perspectiva “materialista vulgar” mecanicista daquilo que ele próprio denomina “a máquina econômica”, declarando com otimismo ilimitado que a ciência, a eficiência técnica e a acumulação de capital (e esta última graças ao “princípio do juro composto”, e não à exploração nacional e internacional) estão perto de resolver, “gradualmente”, é claro, “o problema econômico da humanidade”. Uma questão que, de acordo com Keynes, deveria ser considerada “um assunto para especialistas, como a odontologia”. Se ainda estamos com problemas como a “depressão mundial reinante” e a “anomalia do desemprego em um mundo repleto de carências”, é apenas porque, 

Por enquanto, a própria rapidez dessa mudanças [na eficiência técnica] está nos causando danos e provocando problemas difíceis de solucionar. Os países que sofrem relativamente mais são os que estão na vanguarda do progresso. Estamos sendo afetados por uma nova doença [...] isto é, o desemprego tecnológico [...] Mas esta é somente uma fase temporária de desajuste. Tudo isso significa que, a longo prazo, a humanidade está solucionando seu problema econômico. [KEYNES] 

Como podemos ver, o sermão de fé ideológica não parece ter mudado muito, se é que mudou alguma coisa, após tantos anos que nos separam da época em que foram escritas as linhas citadas. Supõe-se igualmente que nosso crescente desemprego não seja mais do que uma "fase temporária de desajuste" por causa da "rapidez das mudanças na eficiência tecnológica", tudo em prol da boa causa de se permanecer na "vanguarda do progresso".

A diferença é que Keynes podia ainda, em 1930, confiantemente prognosticar que "o problema econômico da humanidade" seria resolvido dentro de cem anos nos "países progressistas". Entretanto, através de suas restrições pode-se perceber que, para Keynes, o conceito de "humanidade" - que se considera prestes a solucionar o problema econômico - é limitado aos "países progressistas" e às "vanguardas do progresso" (seus codinomes para designar os países imperialistas dominantes). Isto, mais uma vez, sublinha a total irrealidade de seu diagnóstico "científico".

Além disso, de acordo com a antigo postulado da economia política burguesa, segundo o qual a própria natureza implantara a “motivação das riquezas” em todos os seres humanos, Keynes afirma “que fomos claramente desenvolvidos pela natureza – com todos os nossos impulsos e instintos profundos – para solucionar o problema econômico. Se o problema econômico for resolvido, a humanidade estará privada de seu propósito tradicional”. E é assim que descreve a mudança positiva que sucederá aos indivíduos que ele considera tão profundamente determinados pela própria natureza em seus mais íntimos “impulsos e instintos”:

Quando a acumulação de riqueza já não for de alta importância social, haverá grandes mudanças no código moral [...]. Estaremos então livres, afinal, para descartar todos os costumes sociais e práticas econômicas, que agora mantemos a todo custo, por mais desagradáveis e injustos que possam ser em si mesmos, por serem enormemente úteis para a acumulação do capital [...]. Prestaremos honras àqueles que podem nos ensinar a aproveitar a hora e o dia com virtude e bondade, as pessoas encantadoras que são capazes de colher um gozo direto das coisas, os lírios do campo que não trabalham nem fiam. [KEYNES]

Como é tocante, poético e sedutor!

Visto mais detidamente, no entanto, o discurso keynesiano sobre a miraculosa conversão do ser que, por um instinto natural, é um ganhador-de-dinheiro – conversão que ele prevê, deveria ocorrer cerca de um século depois de 1930 – aparece uma opinião inteiramente gratuita. Sem qualquer base e, mais do que isso, contra os argumentos sobre a força da “natureza” que ele próprio havia enunciado poucas linhas antes, Keynes contrapõe com arbitrariedade o mundo impotente do “dever ser” à realidade existente do “é”, sublinhando sua polaridade também pelo abismo temporal que coloca entre eles.

Em todo caso, a ilusória redenção quase religiosa proposta como real não é o verdadeiro propósito do discurso de Keynes. Ele oferece o prêmio moral-religioso da “recompensa final” aos indivíduos – para quem a terra prometida está no além, pois em cem anos estarão todos mortos – com a condição de que troquem a busca de uma possível mudança radical num futuro não tão distante pelo seu adiamento para além de qualquer expectativa de vida possível, aceitando assim com santa resignação a ordem estabelecida das coisas. Keynes, imediatamente depois das linhas citadas, leva-nos de volta à sua bem prosaica e totalmente mistificadora visão da realidade. Eis como prossegue seu “Ensaio Sobre a Persuasão”, depois de elogiar os lírios do campo:

Mas cuidado! Ainda não chegou a hora para isso. Durante pelo menos outros cem anos devemos fingir para nós mesmos e para todos os outros que o bom é ruim e o ruim é bom, porque o ruim é útil e o bom não é. A avareza, a usura e a prudência devem ser nossos deuses ainda por algum tempo. Somente elas podem nos tirar do túnel da necessidade econômica para a luz do dia [KEYNES].

Keynes desorienta seu público, fundindo (e confundindo) deliberadamente “útil” com lucrativo (o verdadeiro termo operativo sob sua fraseologia diversa). Ele está convencido (ou melhor, quer nos convencer) de que os problemas da “necessidade econômica” são problemas técnicos, que devem ser deixados para os “especialistas em gerência de usura e odontologia econômica. Nesse sentido, Keynes insiste em que os especialistas “humildes, mas competentes” por ele recomendados estão destinados a nos levar do “túnel da necessidade econômica” para nosso “destino de bem-aventurança econômica”, desde que confiemos neles incondicionalmente – assim como ninguém que esteja com dor de dentes, e em seu juízo perfeito, questionaria a sensatez de se entregar à competência de dentistas especializados para aliviar sua dor. Na verdade, Keynes está tão convencido da validade da sua visão “odontológica” do “problema econômico” que conclui seu ensaio com estas palavras: “Se os economistas conseguissem levar os outros a vê-los como pessoas despretensiosas e competentes, como o fazem os dentistas, isto seria esplêndido”.

Infelizmente, a meros 42 anos [hoje faltam 13 anos para o “paraíso keynesiano”, marcado para 2030!] do limite estabelecido estabelecido pelo próprio Keynes para atingir nosso prometido destino de “bem-aventurança econômica”, estamos hoje muito mais distantes do fim do túnel do que [... em 1930], apesar dos grandes avanços na produtividade conseguidos em todas essas décadas.

O motivo disso é que o “problema econômico” de que Keynes fala não é, na verdade, o da “necessidade econômica” – que, em sua opinião, seria automaticamente eliminado no devido tempo pela feliz “acumulação de riqueza” -, mas um problema profundamente social (ou socioeconômico). Não há riqueza acumulada que possa sequer começar a eliminar as restrições paralisantes das determinações socioeconômicos atualmente impostas se a crescente riqueza social for despejada (como é o caso hoje em dia) no poço sem fundo do complexo militar-industrial, ou de outros tipos de desperdício, em vez de satisfazer às necessidades humanas.

De modo semelhante, a despeito do tratamento autocondescendente (e que, exatamente, por isso, é muito popular em nossos dias) que Keynes dá ao problema, não existe um “desemprego tecnológico”. O desemprego em massa – muito maior hoje do que 1930, quando Keynes prometeu “para breve” a luz do fim do túnel – poderia, em princípio, ser eliminado praticamente da noite para o dia. Não pela milagrosa criação de novos empregos por uma “terceira” ou “quarta revolução industrial”, mas por uma estratégia social conscientemente adotada e que tenha em vista reduzir o tempo de trabalho dos membros da sociedade, de acordo com as necessidades reais e os objetivos produtivos da força de trabalho disponível.

Assim os interesses ideológicos que ele defende sem hesitação aprisionam numa posição sem esperança até aqueles “dentistas” econômicos tecnicamente mais competentes como Keynes. Pois dados os pressupostos necessários de seu ponto de vista social – pressupostos que se originam do objetivo consciente e desafiadoramente adotado de defender os direitos adquiridos da “burguesia educada” -, Keynes fica impedido de perceber o óbvio. Ou seja, a despeito das garantias de seu confortante sermão econômico, não estaremos sequer mais perto da prometida luz no fim do túnel nem daqui a mil anos, pela simples razão de que estamos caminhando na direção oposta, buscando lucro sob o pretexto de “utilidade” e destruindo com irresponsável “eficiência técnica” os mais preciosos recursos humanos e materiais, ao atribuir à cega “máquina econômica” do capital a tarefa de solucionar o “problema econômico da humanidade”.


(MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 60-64).


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Trecho: Método positivista e método dialético




por José Chasin

Algumas características do que chamei de tronco das tendências positivistas no campo gnosiológico do pensamento filosófico e da ciência do homem ou da ciência social.

Se há um tronco positivista, um conjunto de posições, não apenas as posições ligadas a Augusto Comte, há, por outro lado, um tronco dialético. São dois troncos e o tronco positivista tinha gnosiologicamente, epistemologicamente, como filosofia da ciência.

Do ponto de vista dialético não é possível pura e simplesmente adotar a subdivisão teoria do conhecimento, epistemologia, filosofia da ciência que já é por si o produto da perspectiva positivista. Do ponto de vista dialético, sem dúvida existe uma problemática do conhecimento e existe uma problemática da ciência. As coisas são extremamente interligadas. De modo que ao falar em epistemologia ou em gnosiologia eu estou remetendo sempre, simultaneamente, a uma teorética do conhecimento e a uma teorética da episteme. Mas, de modo inverso ao positivismo, estou remetendo a uma teoria da ciência, a uma teoria do conhecimento que não nasce a partir de uma reflexão pura e simples da observação do procedimento científico no campo rigorosamente laboratorial, entre aspas.

Enquanto todas as correntes pensam a gnosiologia e a epistemologia a partir das formas superiores da elaboração do espírito, isto é, tomam como ponto de partida resultados da autonomização da inteligência, do espírito, tomam um momento elevado do produto histórico da elaboração científica. O que eu quero dizer: quando um Kant, quando um Descartes, quando todos os pensadores da história da filosofia tomam a questão do conhecimento para tratar, quando convertem o fenômeno do conhecimento num objeto específico para examinar a partir da elaboração já de nível elevado que a ciência tem atingido, da matemática, da física, passam a refletir sobre o problema do conhecimento como se ele se instaurasse no instante em que o especialista recuasse diante do objeto, no espaço do seu laboratório – o laboratório pode ser a biblioteca – e começasse a refletir sobre o que é o conhecimento a partir desse instante. Tudo funciona como se o conhecimento se instaurasse a partir desse momento, o momento do conhecer sistemático, rigoroso, intelectual, elaborado, etc.

A dialética, não. A dialética toma como ponto de partida um instante muito mais natural e historicamente efetivo. A dialética instaura sua gnosiologia a partir do instante em que ela descobre no homem efetivo, não no homem especialista, no homem filósofo, no homem intelectual, mas no homem comum, no homem na sua cotidianidade, a partir desse homem que trabalha, e eu grifo a palavra trabalha, é que instaura a problemática gnosiológica. Sendo a ciência, a filosofia, enfim as formas superiores do espírito resultado dessa gênese na cotidianidade, produto de um distanciamento, produto de uma autonomização do espírito em relação ao cotidiano, há uma independentização deste pensamento. Sobre isto voltaremos. Eu quis apenas caracterizar aqui a diferença de raiz entre uma gnosiologia de ordem marxista e uma gnosiologia de ordem não marxista. Enquanto uma parte do laboratório a outra parte da condição histórico-concreta do homem efetivo, não do homem especulativo. [...]

Caracterização do ramo dialético. “A dialética trata da coisa em si” [expressão de Karel Kosik]. Com estas únicas palavras se faz a dialética de Marx ser não apenas diferente de todo o tronco positivista, mas ser o seu oposto. Se a dialética trata da coisa em si e o positivismo recusa, evita tratar da coisa em si, nós estamos com dois troncos diametralmente distintos.

Ao se dizer que a dialética trata da coisa em si está-se subentendendo primeiro a possibilidade de o entendimento alcançar a integridade e a integralidade dos objetos postos para o conhecimento. A posição do método dialético concebe um ser cognitivo que alcança a totalidade do objeto. Alcançar o todo essencial do objeto, conhecê-lo no seu núcleo mais íntimo é compreendido como uma possibilidade real do sujeito.

Desde logo, portanto, há uma afirmação ontológica da gnosiologia marxiana. Sujeito que pode conhecer a totalidade do objeto e agora nós temos que parar um pouco sobre este sujeito. Sim, este sujeito pode conhecer a totalidade do objeto, mais do que isto, ele deve conhecer a totalidade do objeto, ainda mais, conhecer é só conhecer quando a totalidade do objeto é compreendida. Só é objetivo o conhecimento da totalidade. O conhecimento só é concreto quando referido ao todo.

A concepção do sujeito já é distinta da concepção do sujeito do positivismo. De um lado, no positivismo, o sujeito é um sujeito de consciência limitada, no caso da dialética, o sujeito é ilimitado. E essa infinitude do sujeito não está remetida pura e simplesmente à individualidade. O sujeito do conhecimento não é entendido como a individualidade singular concreta. O sujeito do conhecimento não é apenas a consciência individual isolada. Mais do que isso. A consciência individual isolada é de fato a consciência real, mas ela expressa um sujeito coletivo de conhecimento, que é o real responsável pela constituição da perspectiva que permite o conhecimento. Em última análise, os indivíduos reais é que consubstanciam esse conhecimento, mas eles consubstanciam em termos e na medida em que eles realizam uma condição de possibilidade objetiva que os ultrapassa.

Aqui o sujeito do conhecimento é, à semelhança do sujeito da história, um sujeito coletivo. Quem é o sujeito da história? São os indivíduos isolados? Não. As classes sociais são os sujeitos coletivos da história. As classes sociais é que realizam a história. Os dirigentes ostensivos individuais, que detêm as alavancas do poder do Estado, são representantes de uma política, quer dizer, de um interesse global de categorias sociais. O sujeito cognitivo é a classe. É no interior do sujeito coletivo que as individualidades realizam a apreensão cognitiva objetiva concreta exata.



(CHASIN, J. Método dialético. Transcrição das aulas ministradas durante o curso de pós-graduação em Filosofia Política, promovido pelo Dep. de Filosofia e História da Universidade Federal de Alagoas, de 25/01 a 06/02 de 1988).


domingo, 13 de agosto de 2017

Vídeo: Os benefícios do keynesianismo nunca são universais


Trecho da palestra O Estado e a Crise Estrutural do Capital, ministrada pela Profª Cristina Paniago (Ufal), no auditório de Geociências da UFBA, em 19 de abril de 2013.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Artigo: Althusser - ideologia e aparelhos de estado; velhas e novas questões


Resumo: O presente artigo tem como objetivo principal explicitar a tematização de Althusser sobre o fenômeno da ideologia ao longo de suas principais obras. Desse modo, o leitor terá a oportunidade de visualizar concretamente a utilização do critério epistemológico na determinação do fenômeno ideológico, bem como a aproximação teórica que o referido autor realiza com o problema do inconsciente, sobretudo no Ensaio sobre os Aparelhos Ideológicos de Estado.

Palavras-chave: Althusser; ideologia; Estado; epistemologia.

Abstract: The main objective of the present article is to explicit Althusser’s thematization about the ideological phenomenon, throughout his most important works. In such a way, the reader will be able to concretely visualize the utilization of the epistemological criterium to determine the ideological phenomenon, as well as the theoretical approximation that the author accomplishes with the unconscious issue, mostly in the Essay about the Ideological State Apparatuses.

Keywords: State; Althusser; ideology; epistemology.



VAISMAN, Ester. Althusser: ideologia e aparelhos de estado - velhas e novas questões. In: Projeto História, São Paulo, n.33, p. 247-269, dez. 2006


domingo, 30 de julho de 2017

Trecho: O nascimento da sociologia


por José Paulo Netto

Lukács situa a sociologia como ciência típica da etapa de decadência da burguesia, iniciada em 1848: “a sociologia, como disciplina independente, surgiu na Inglaterra e na França com a dissolução da economia política clássica e do socialismo utópico, que eram, ambos, cada um a seu modo, doutrinas que abarcavam a vida social e se ocupavam com os problemas essenciais da sociedade, em conexão com as questões econômicas condicionantes” (A Destruição da Razão). [...].

A atualidade científica do legado de Lukács, neste domínio, reside, porém, noutra instância — exatamente aquela que retoma a noção de “somente uma ciência, a ciência da história” [Marx e Engels]. Quando os cientistas sociais desengajados do establishment começam a descobrir que a sociologia não tem passado de sociografia, que a história não tem passado de historiografia, que a economia não tem passado de econometria, e assim por diante, e quando a totalidade restaura sua prioridade pelos interstícios de um conhecimento que se estilhaçou em saberes compartimentalizados — então o legado lukacsiano se insere como um cânone para a ciência social. De fato, a enérgica recusa de Lukács à sociologia é a recusa de um saber social singularizado: a pretensão sociológica de um objeto específico autônomo é fundamentalmente equívoca.

Na hora em que este equívoco se desnuda e os velhos territórios científicos se desmoronam, o texto lukacsiano retoma então uma meridiana legibilidade: “O isolamento — por abstração — de elementos, tanto de um domínio de pesquisa, quanto de grupos particulares de problemas ou de conceitos no interior de um domínio de pesquisa, é certamente inevitável. Mas o que é decisivo, no entanto,é saber se este isolamento é apenas um meio para o conhecimento do todo, ou seja, se ele se integra sempre num correto contexto de conjunto que pressupõe e a que se prende, ou se o conhecimento — abstrato — do domínio parcial isolado conserva sua ‘autonomia’, permanecendo um fim em si” (HCC). [...].

A “ciência da história” como ciência social unitária retorna como projeto possível, não sobre a base de uma totalidade posta pela intelecção, mas como resultante de uma ontologia do ser social, compreendido em sua especificidade abrangente. [...]

Com tais parâmetros, a ciência social reencontra — para além de distinções determinadas por uma divisão do trabalho intelectual deformadora e alienante — a sua matrização originária, de gnose unitária da história, gnose que viabiliza um alto conhecimento humano, gnose que se instrumentaliza como componente fundamental na práxis mediante a qual o homem se instaura como autor de sua livre socialidade.


(NETTO, J. P. Lukács e a sociologia. In: Contexto, São Paulo, n. 1, p. 61-77, nov. 1976).