quarta-feira, 7 de junho de 2017

Trecho: A pedagogia tecnicista



por Dermeval Saviani

Ao findar a primeira metade do século atual [XX], o escolanovismo apresentava sinais visíveis de exaustão. As esperanças depositadas na reforma da escola resultaram frustradas. Um sentimento de desilusão começava a se alastrar nos meios educacionais. A pedagogia nova, ao mesmo tempo que se tornava dominante enquanto concepção teórica a tal ponto que se tornou senso comum o entendimento segundo o qual a pedagogia nova é portadora de todas as virtudes e de nenhum vício, ao passo que a pedagogia tradicional é portadora de todos os vícios e de nenhuma virtude, na prática se revelou ineficaz em face da questão da marginalidade. Assim, de um lado surgiam tentativas de desenvolver uma espécie de "Escola Nova Popular", cujos exemplos mais significativos são as pedagogias de Freinet e de Paulo Freire; de outro lado, radicalizava-se a preocupação com os métodos pedagógicos presentes no escolanovismo que acaba por desembocar na eficiência instrumental. Articula-se aqui uma nova teoria educacional: a pedagogia tecnicista

A partir do pressuposto da neutralidade científica e inspirada nos princípios de racionalidade, eficiência e produtividade, essa pedagogia advoga a reordenação do processo educativo de maneira a torná-lo objetivo e operacional. De modo semelhante ao que ocorreu no trabalho fabril, pretende-se a objetivação do trabalho pedagógico. Com efeito, se no artesanato o trabalho era subjetivo, isto é, os instrumentos de trabalho eram dispostos em função do trabalhador e este dispunha deles segundo seus desígnios, na produção fabril essa relação é invertida. Aqui é o trabalhador que deve se adaptar ao processo de trabalho, já que este foi objetivado e organizado na forma parcelada. Nessas condições, o trabalhador ocupa seu posto na linha de montagem e executa determinada parcela do trabalho necessário para produzir determinados objetos. O produto é, pois, uma decorrência da forma como é organizado o processo. O concurso das ações de diferentes sujeitos produz assim um resultado com o qual nenhum dos sujeitos se identifica e que, ao contrário, lhes é estranho

O fenômeno acima mencionado nos ajuda a entender a tendência que se esboçou com o advento daquilo que estou chamando de "pedagogia tecnicista". Buscou-se planejar a educação de modo a dotá-la de uma organização racional capaz de minimizar as interferências subjetivas que pudessem pôr em risco sua eficiência. Para tanto, era mister operacionalizar os objetivos e, pelo menos em certos aspectos, mecanizar o processo. Daí, a proliferação de propostas pedagógicas tais como o enfoque sistêmico, o micro-ensino, o tele-ensino, a instrução programada, as máquinas de ensinar etc. Daí, também, o parcelamento do trabalho pedagógico com a especialização de junções, postulando-se a introdução no sistema de ensino de técnicos dos mais diferentes matizes. Daí, enfim, a padronização do sistema de ensino a partir de esquemas de planejamento previamente formulados aos quais devem se ajustar as diferentes modalidades de disciplinas e práticas pedagógicas. 

Se na pedagogia tradicional a iniciativa cabia ao professor que era, ao mesmo tempo, o sujeito do processo, o elemento decisivo e decisório; se na pedagogia nova a iniciativa desloca-se para o aluno, situando-se o nervo da ação educativa na relação professor-aluno, portanto, relação interpessoal, intersubjetiva - na pedagogia tecnicista, o elemento principal passa a ser a organização racional dos meios, ocupando professor e aluno posição secundária, relegados que são à condição de executores de um processo cuja concepção, planejamento, coordenação e controle ficam a cargo de especialistas supostamente habilitados, neutros, objetivos, imparciais. A organização do processo converte-se na garantia da eficiência, compensando e corrigindo as deficiências do professor e maximizando os efeitos de sua intervenção. 

Cumpre notar que, embora a pedagogia nova também dê grande importância aos meios, há, porém, uma diferença fundamental: enquanto na pedagogia nova os meios são dispostos e estão à disposição da relação professor-aluno, estando, pois, a serviço dessa relação, na pedagogia tecnicista a situação se inverte. Enquanto na pedagogia nova são os professores e alunos que decidem se utilizam ou não determinados meios, bem como quando e como o farão, na pedagogia tecnicista dir-se-ia que é o processo que define o que professores e alunos devem fazer, e assim também quando e como o farão.

Compreende-se, então, que para a pedagogia tecnicista a marginalidade não será identificada com a ignorância [pedagogia tradicional] nem será detectada a partir do sentimento de rejeição [escolanovismo]. Marginalizado será o incompetente (no sentido técnico da palavra), isto é, o ineficiente e improdutivo. A educação estará contribuindo para superar o problema da marginalidade na medida em que formar indivíduos eficientes, portanto, capazes de darem sua parcela de contribuição para o aumento da produtividade da sociedade. Assim, estará ela cumprindo sua função de equalização social. Nesse contexto teórico, a equalização social é identificada com o equilíbrio do sistema (no sentido do enfoque sistêmico). A marginalidade, isto é, a ineficiência e improdutividade se constitui numa ameaça à estabilidade do sistema. Como o sistema comporta múltiplas funções, às quais correspondem determinadas ocupações; como essas diferentes funções são interdependentes, de tal modo que a ineficiência no desempenho de uma delas afeta as demais e, em conseqüência, todo o sistema - cabe à educação proporcionar um eficiente treinamento para a execução das múltiplas tarefas demandadas continuamente pelo sistema social. A educação será concebida, pois, como um subsistema, cujo funcionamento eficiente é essencial ao equilíbrio do sistema social de que faz parte. Sua base de sustentação teórica desloca-se para a psicologia behaviorista, a engenharia comportamental, a ergonomia, informática, cibernética, que têm em comum a inspiração filosófica neopositivista e o método funcionalista. Do ponto de vista pedagógico conclui-se, pois, que se para a pedagogia tradicional a questão central é aprender e para a pedagogia nova aprende a aprender, para a pedagogia tecnicista o que importa é aprender a fazer.

À teoria pedagógica acima exposta corresponde uma reorganização das escolas que passam por um crescente processo de burocratização. Com efeito, acreditava-se que o processo se racionalizava na medida em que se agisse planificadamente. Para tanto, era mister baixar instruções minuciosas de como proceder com vistas a que os diferentes agentes cumprissem cada qual as tarefas específicas acometidas a cada um no amplo espectro em que se fragmentou o ato pedagógico. O controle seria feito basicamente através do preenchimento de formulários. O magistério passou então a ser submetido a um pesado e sufocante ritual, com resultados visivelmente negativos. Na verdade, a pedagogia tecnicista, ao ensaiar transpor para a escola a forma de funcionamento do sistema fabril, perdeu de vista a especificidade da educação, ignorando que a articulação entre escola e processo produtivo se dá de modo indireto e através de complexas mediações. Além do mais, na prática educativa, a orientação tecnicista se cruzou com as condições tradicionais predominantes nas escolas bem como com a influência da pedagogia nova que exerceu poderoso atrativo sobre os educadores. Nessas condições, a pedagogia tecnicista acabou por contribuir para aumentar o caos no campo educativo gerando tal nível de descontinuidade, de heterogeneidade e de fragmentação, que praticamente inviabiliza o trabalho pedagógico. Com isto o problema da marginalidade só tendeu a se agravar: o conteúdo do ensino tornou-se ainda mais rarefeito e a relativa ampliação das vagas se tornou irrelevante em face dos altos índices de evasão e repetência.

A situação acima descrita afetou particularmente a América Latina já que desviou das atividades-fim para as atividades-meio parcela considerável dos recursos sabidamente escassos destinados à educação. Por outro lado, sabe-se que boa parte dos programas internacionais de implantação de tecnologias de ensino nesses países tinham por detrás outros interesses como, por exemplo, a venda de artefatos tecnológicos obsoletos aos países subdesenvolvidos.

Artigo inteiro em PDF.

SAVIANI. Dermeval. As teorias da educação e o problema da marginalidade na América Latina. In: Cad. Pesq. São Paulo (42), p. 8-18, Agosto 1982, grifos nossos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Artigo: Kautsky e as origens históricas do centrismo na esquerda


Resumo: Este artigo de Valério Arcary discorre sobre as origens da centro-esquerda no movimento socialista na virada do século XIX para o XX, apresentando a versão reformista defendida pelo autor tcheco-austríaco Karl Kautsky em suas características essenciais, que, segundo o autor, podem ser divididas em três principais: quietismo, fatalismo e programa nacional-germanista.

Palavras-chave: reformismo, Kautsky, fatalismo, germanismo, racionalismo formal, centro-esquerda


ARCARY, Valério. Kautsky e as origens históricas do centrismo na esquerda. In: Revista Outubro, n. 7, 2002.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Artigo: Anticapitalismo romántico y asistencia: una emancipación ilusoria en el Uruguay progresista




ALONSO, José Pablo Bentura. Anticapitalismo romántico y asistencia: una emancipación ilusoria en el Uruguay progresista. In: Textos & Contextos (Porto Alegre), v. 10, n. 1, p. 118 - 136, jan./jul. 2011.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Trecho: Sobre ontologia e logicismo


por György Lukács

A lógica é um dos mais importantes meios homogêneos criados pela práxis e pelo trabalho mental do homem. Não existem nela elementos e relações que não possam e não devam ser reconduzidos - em última instância - a elementos e relações da realidade. Todavia, a eficácia histórica da lógica no desenvolvimento da humanidade repousa no fato de que tais pontos de partida parecem se extinguir no meio homogêneo da lógica; no fato de que esse meio homogêneo parece se condensar num sistema acabado em sua imanência, apoiado sobre si mesmo, cujo caráter sistemático homogêneo forma a base de sua universalidade. Embora não seja possível examinar aqui a fundo as complicadíssimas questões de concordância com a realidade e dos desvios em relação a ela, temos porém de sublinhar como esse caráter sistemático homogêneo provocou frequentemente nos pensadores a ilusão de poder, mediante um sistema bem-acabado do universo do pensamento homogeneizado em termos lógicos, dar respostas, a partir dele, a todas as questões que nascem das relações dos seres humanos com a realidade. Encontramos tendências nesse sentido já em Raimundo Lúlio e na mathesis universalis de Leibniz; elas muito difundidas ainda hoje, pelo neopositivismo, como teorias da manipulação universal, embora atualmente seja negada, como vimos, qualquer referência ontológica. Hegel se distingue de seus predecessores e mais ainda dos defensores contemporâneos de um sistema logicista universal precisamente porque nele a lógica, apesar do predomínio que obtém na determinação do sistema, não constitui o ponto de partida primário; e isso porque Hegel não tem a mínima intenção de chegar a seu sistema universalista apenas desenvolvendo e aperfeiçoando a lógica, a matemática etc. existentes; ao contrário, pretende criar - partindo de ponderações e noções ontológicas - uma lógica radicalmente nova, a lógica dialética, para desse modo alcançar um sistema lógico do ser e do devir no terreno global do ente-em-si. O sujeito-objeto idêntico e a transformação da substância em sujeito são os veículos dessa passagem da totalidade do ontológico para um sistema da lógica.
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Já sabemos que a lógica cria um meio homogêneo de pensamento, cuja estrutura deve ser qualitativamente diversa da realidade, que é em si heterogênea; e essa diversidade deve se manifestar, não fosse por outra razão, pelo fato de que as relações num meio homogêneo devem ser constituídas de modo diverso do que seriam em presença de objetos. forças etc. realmente heterogêneos e atuando uns sobre os outros. Já nos referimos às operações intelectuais que tal fato torna necessárias, como, por exemplo, à necessidade de uma interpretação física etc. dos fenômenos reais que tenham sido expressos em fórmulas matemáticas; nesse caso, é preciso que aquilo que recebeu homogeneização matemática seja novamente aproximado da realidade objetiva, mediante o destaque e a aclaração intelectuais 
do caráter heterogêneo de seus componentes. [...]
[passar da Verstand, necessária, para a Vernunft].

Trecho do livro:
LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social I. São Paulo: Boitempo: 2012, p. 220-221.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Tese: Contribuições para uma crítica ao pensamento político de Hannah Arendt


Resumo: O objetivo central deste trabalho foi investigar as antinomias em que Hannah Arendt incorreu ao longo do seu complexo percurso teórico no campo do pensamento político. Dentre essas antinomias, destacamos suas críticas ao nazismo, que se nutrem de algumas fontes filosóficas similares às deste movimento; sua defesa da razão, que recusa em aspectos decisivos a racionalidade da história; sua apologia da revolução, que contém uma concepção aristocrática da participação política; e, por fim, numa pensadora tida como inclassificável, como suas ideias se enquadram, em essência, nos cânones do liberalismo político. Na análise deste percurso, que vai desde seus primeiros escritos até as vésperas d A vida do espírito, buscou-se aflorar, especialmente, o papel destacado que a obra de Karl Marx ocupa como objeto de crítica e de desenvolvimento das próprias posições de Hannah Arendt, em particular o caráter controverso e mesmo incorreto das análises que a autora efetua desta obra. Enfim, tentamos demonstrar que o conservadorismo de Hannah Arendt se adensou ao longo de suas formulações críticas em relação a Marx e, ao mesmo tempo, com o distanciamento da II Guerra mundial e o recrudescimento da Guerra fria.

Palavras-chave: Teoria política, Estado, Totalitarismo, Revolução

Abstract: The main scope of this study was to investigate the antinomies incurred by Hannah Arendt in her complex theoretical path in the field of political thought. Among these antinomies, we point out her criticism of Nazism, nourished by some philosophical sources similar to that movement; her defense of reason, which refuses, in some decisive aspects, the rationality of history; her apology of revolution, characterized by an aristocratic concept of political participation; at last, Being Hannah Arendt a thinker considered difficult to be classified, this study shows that, in essence, her ideas are connected to the canons of political liberalism. By analyzing her early writings until the eve of The life of the mind we tried to approach mainly the prominent role of Karl Marx s works as object of criticism. These critiques compelled her to develop her own positions, particularly the controversial and even incorrect analysis about Marx s works. Finally, we tried to evidence that the conservatism of Hannah Arendt was strengthened by her criticism of Marx and at the same time, by the fact that World War Second became a distant event, while there was an intensification of Cold War.

Keywords: Political theory, State, Totalitarianism, Revolution

Tese em PDF.

GASPAR, Ronaldo F. S. Contribuições para uma crítica ao pensamento político de Hannah Arendt. Orientação: Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. PUC-SP, 2011. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Artigo: Kalecki: entre Marx e Keynes



Resumo: Michal Kalecki, mesmo tendo partido da obra de Marx, nunca adotou de fato as suas diretrizes metodológicas. Desenvolveu apenas, isto sim, uma longa e profícua carreira de economista. De fato, ele nunca pretendeu mais do que desenvolver uma teoria positiva do funcionamento do capitalismo. Apesar de algumas divergências, construiu uma teoria muito similar à de Keynes – um economista liberal por formação e por opção política. Mesmo sendo um socialista, Kalecki não produziu uma teoria crítica do capitalismo. Tal como Keynes, analisou o sistema capitalista pela ótica da circulação do capital, dando sustentação à tese de que a meta desse sistema é a produção de valores de uso. Não escapou também, verdadeiramente, do paradigma da economia do equilíbrio. 


Palavras-chave: Kalecki; marxismo; keynesianismo: demanda efetiva; pleno emprego.


Abstract: Michal Kalecki, even taking advantage of Marx’s work, never actually adopted its methodological guidelines. He developed only, rather, a long and fruitful economist career. In fact, he intended only to develop a positive theory of how capitalism works. Despite some differences, he built a theory very similar to the theory of Keynes – a liberal economist by training and by political option. Even though socialist, Kalecki did not produce a critical theory of capitalism. As Keynes, he analyzed the capitalist system from the perspective of capital circulation, supporting the thesis that the goal of this system is the production of use values. In addition, he does not truly escaped from the equilibrium economics paradigm

Keywords: Kalecki; Marxism; Keynesianism: effective demand; full employment.


PRADO, Eleutério. Kalecki: entre Marx e Keynes. In: Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política. 44 / junho/2016 - setembro/2016, p. 66-83.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Trecho: O canto da sereia keynesiana


Por István Mészáros

Não é surpreendente que sob as atuais condições de crise se ouça o canto da sereia do keynesianismo, visto como o sonhado remédio, apelando para o espírito do velho "consenso expansionista" a serviço do "desenvolvimento". Mas hoje aquele canto soa fraco, vindo através de um longo tubo lá do fundo do túmulo de Keynes. Pois o tipo de consenso cultivado pelas variedades existentes de trabalhismo assimilado tem, na realidade, de tornar palatável a incapacidade estrutural de acumulação e expansão dos capitais, em nítido contraste com as condições que tornaram possíveis as políticas keynesianas durante um curto período. Luigi Vinci, figura proeminente do movimento italiano da Rifondazione, enfatizou corretamente que hoje a autodefinição adequada a viabilidade organizacional autônoma das forças radicais socialistas estão "fortemente tolhidas por um keynesianismo de esquerda vago e otimista em que a magia da palavra 'desenvolvimento' ocupa a posição central". Uma noção de "desenvolvimento" que nem mesmo no auge da expansão keynesiana foi capaz de tornar mais próxima a alternativa socialista, porque sempre aceitou sem contestação as premissas práticas necessárias do capital como estrutura orientadora de sua própria estratégia, sob firmes restrições internalizadas de "linha de menor resistência".

É preciso também destacar que o keynesianismo é por sua própria natureza conjuntural. Como opera no âmbito dos parâmetros estruturais do capital, ele é forçosamente conjuntural, independentemente de as circunstâncias favorecerem um conjuntura mais longa ou mais curta. O keynesianismo, mesmo a variedade chamada "keynesianismo de esquerda", está necessariamente contido na "lógica stop-go" do capital, e por ela é restringido. Mesmo no seu apogeu, o keynesianismo nada representou além da fase "go" de um ciclo de expansão, que mais cedo ou mais tarde chega ao fim, substituído pela fase "stop". Nas suas origens o keynesianismo tentou oferecer uma alternativa à logica "stop-go", por meio da administração "equilibrada" das duas fases. Mas não foi capaz de contemplá-la, continuando preso à fase "go", devido à própria natureza de sua estrutura capitalista reguladora orientada pelo Estado. A longa duração da expansão keynesiana - anormal, mas significativamente confinada a um punhado de países capitalistas avançados - se deveu em grande parte às condições favoráveis da reconstrução do pós-guerra a à oposição dominante nela assumida pelo complexo industrial-militar maciçamente financiado pelo Estado. Em compensação, o fato de que a fase "stop" de correção e contra-ação à fase "go" ter de assumir a forma dura e dolorosa do "neoliberalismo" (e "monetarismo", conforme sua racionalização ideológica pseudo-objetiva) - já no governo trabalhista de Harold Wilson, presidido monetária e financeiramente por Denis Healey na qualidade de Chancele do Tesouro - deveu-se ao início da crise estrutural (não mais a crise cíclica tradicional) do capital, englobando toda uma época histórica. É o que explica a duração excepcional da fase "stop" neoliberal, agora já muito mais longa que a fase "go" do keynesianismo do pós-guerra. Fase que, ainda sem fim à vista, se vê perpetuada pela atenção igualmente cuidadosa de governos conservadores e trabalhistas. Ou seja, tanto a dureza anti-sindical quanto a duração assustadora da fase "stop" neoliberal, mais o fato de o neoliberalismo ser praticado por governos que deveriam estar situados de lados opostos do divisor político parlamentar, só podem ser entendidos como manifestações da crise estrutural do capital. A circunstância de a brutal longevidade da fase neoliberal ser racionalizada ideologicamente por alguns teóricos trabalhistas como o "longo ciclo recessivo" do desenvolvimento normal do capitalismo, a ser seguido por um outro "longo ciclo de expansão", acentua apenas a incapacidade do "pensamento estratégico" reformista de entender a natureza das atuais tendências de desenvolvimento. Tanto mais que a selvageria do neoliberalismo continua a avançar sem as contestações de uma esquerda acomodada, e já começam a nos faltar os anos necessários até mesmo para a realização da caprichosa noção do próximo "longo ciclo de expansão", como teorizam os apologistas do capital na esquerda.

Assim, dada a crise estrutural do sistema do capital, mesmo que uma alteração conjuntural fosse capaz de criar durante algum tempo uma tentativa de instituir alguma forma de administração financeira keynesiana do Estado, ela teria forçosamente uma duração muito limitada, devido à ausência das condições materiais que poderiam favorecer sua extensão por um período maior, mesmo nos países capitalistas avançados. Ainda mais importante, esse renascimento conjuntural limitado nada poderia oferecer para a realização da alternativa socialista radical. Pois seria impossível construir uma alternativa estratégica viável ao modo de controle do metabolismo social do capital sobre uma modalidade conjuntural interna de administração do sistema; uma forma que depende da expansão e da acumulação saudáveis do capital como pré-condição necessária de seu próprio modo de operação.

Trecho do livro:
MÉSZÁROS, István. O século XXI: socialismo ou barbárie? São Paulo: Boitempo, 2003, p. 95-98.