terça-feira, 25 de março de 2025

ARTE REALISTA| Spam de niver

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Spam de niver (farsa, BRA, 2025) de Bianca Frossard.

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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Sobre o ranking politológico dos liberais

 
por Samuel Braun
Instituto Humanitas Unisinos/2022

Os liberais — e com isso digo os estudados, não os papagaios modinha — não são capazes de escrever algo útil sobre a questão dos russos étnicos da Ucrânia porque parecem não ter o hábito de fazer ciência, ou seja, diferenciar sua corrente teórica da verdade científica. Tratam como uma mesma coisa por essência.

Dou dois exemplos que infectam meu feed: Augusto Franco e Joel Pinheiro da Fonseca. Os dois vêm escrevendo textos onde defendem um frouxo conceito totalizante chamado “democracia liberal”, e a partir dele medem quem está certo ou errado nas relações internacionais.

Augusto fala de um tal V-DEM, que sabemos possuir 5 tipologias de democracias diferentes. Ele fala, contudo, que a liberal é o ápice das demais. Em várias postagens diz que se trata de um percurso onde o número de partidos habilitados à escolha popular é o primeiro e eliminatório critério (referente à democracia eleitoral). Só que nesse método, estranhamente, os Estados Unidos, que só tem dois partidos efetivamente nacionais e não tem voto direto pra Presidente, está no alto do ranking democrático, quando jamais passaria do primeiro critério.

Augusto, como devem saber, ganha a vida com cursos, palestras e consultorias sobre... democracia. Joel ganha a vida escrevendo pra Folha de São Paulo. E lá repete as mesmas coisas, com menos detalhamento teórico. Supostamente a “democracia liberal” seria o paraíso que todos deveriam buscar, passando por níveis inferiores (que Augusto chama de democracia eleitoral, democracia populista, etc).

O que os dois fazem não é um caso curioso de engano semelhante, não é uma coincidência. A própria instituição que elabora o V-DEM publica seus relatórios destacando o V-Dem’s Liberal Democracy Index (LDI). No fim se trata disso, de um ranking de democracias liberais que será usado pelo Banco Mundial, agências da ONU e liberais abroad para impor suas preferências ideológicas sobre os desejos dos povos. O ranking se converte assim numa ferramenta antidemocrática de proa.

Inclusive o relatório anual entrega que se trata de um trabalho voltado para hierarquizar as variedades de democracias conforme sua aproximação com o liberalismo: “For most parts of the Democracy Report the focus is on gradual changes in the LDI”. Efetivamente as páginas finais classificam os países com setas subindo ou descendo entre níveis melhores e piores, partido de Closed Autocracy, passando por Electoral Autocracy e Electoral Democracy, até chegar a Liberal Democracy.

Ainda na publicação do V-DEM os países chamados de autocratas recebem a cor vermelha (do comunismo), e os liberais azul. Embora conceitualmente prevejam variedades de democracias, toda a publicação trata a liberal como a única realmente desejável, e a aproximação ou afastamento dela se converte abertamente em mais ou menos democracia, como usam os liberais citados no post. O resultado é a divisão do mundo entre os democratas (a.k.a. ocidente) e os autocratas (o “terceiro mundo” e todos os adversários da potência central do Sistema Interestatal), como podem ver no mapa.

Os EUA, sem eleição direta pra presidente tem o índice global de democracia 0.73, enquanto Cuba, com votações em todas as questões públicas desde os bairros tem 0.09. Chegam ao absurdo de darem 0,03 pra Cuba em participação política, metade do índice dos EUA! O máximo nessas medidas é 1.0.

Limitados a repetir esse índices sem entendê-los, inclusive porque nunca abrem suas bases de dados para estudar a metodologia, a quase totalidade de liberais repete tanto na economia como na ciência política a afirmação de suas preferências como se fossem meros dados naturais observáveis. E é este mesmo comportamento que anima a teoria liberal das relações internacionais.

A partir de idealizações sobre o que é democracia, previamente circunscritas àquilo que é mais próximo ou mais distante de sua perspectiva econômico-política, supõe ter em mãos um valor absoluto capaz de simplificar qualquer análise. Bastaria, assim, olhar quais regimes mais lhes agradam para descobrir quais regimes seriam mais democráticos, logo, merecedores do prêmio de superioridade ontológica. Profecia autorrealizável, tautologia.

Se os EUA, por hipótese, financiar milícias nazistas contra minorias étnicas, é democracia pois se trata de uma ação de um país classificado como democracia liberal. Se a Rússia enviar soldados para impedir bombardeios sobre essas minorias, é ataque antidemocrático porque a Rússia seria uma autocracia. É o clássico do juiz que julga pelo CPF. Pobre e preto? Culpado. Rico e branco? Inocente.

Guga Chacra tem sido um dos melhores articulistas liberais. Primeiro ele tem sofrido bastante nas suas entradas online na Globo, tendo que desmentir comentários de colegas menos informados e menos estudados que ele. Segundo, tem escrito em sua coluna todos os absurdos que fazem dos EUA um vilão internacional. Isso o diferencia dos ignorantes que ocupam os jornais e os TTs liberais.

Mas, no fim do dia, Guga precisa concluir pela defesa da ação do vilão, pois uma vez que o polo oposto aos EUA é aprioristicamente lançado à coluna das autocracias, não podem constituir uma opção à sagrada democracia liberal que os EUA representam. Já falou certa vez que embora os EUA sejam criminosos internacionais, toda opção disponível à eles é pior. Mesmo nos casos onde está clara a defesa de valores indiscutíveis da humanidade pelos rivais dos EUA, a elevação da tal democracia liberal a valor máximo impõe um black n' white analítico insuperável.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Auguste Comte: a história idealista e o cientificismo


por Henri Lefebvre

Alguns filósofos colocaram de modo simultaneamente histórico e social o “problema” do conhecimento, rejeitando ao mesmo tempo a metafísica. É o caso, notadamente, de Auguste Comte.

Em seu Cours de philosophie positive (1842), ele formulou a célebre pretensa lei dos “três estados”. O espírito humano, segundo Comte, atravessou inicialmente uma etapa teológica, na qual atribui os fenômenos a causas sobrenaturais, ou seja, à ação de poderes arbitrários análogos à personalidade humana (espíritos mais ou menos fantasistas e conscientes, favoráveis ou cruéis). Em seguida, teria surgido o período metafísico, que explica os fatos naturais através de abstrações, de qualidades ocultas tais como a “pedridade” da pedra, a “virtude dormitiva” do ópio, o horror da natureza pelo vazio, a qualidade gravitacional dos corpos pesados, etc.

Finalmente, na era positiva ou científica, à qual chegamos, o espírito renuncia a conhecer as causas, estuda o “como” e não o “por quê” dos fenômenos e se contenta em descobrir as relações constantes e regulares entre esses fenômenos, suas leis.

Teremos mais tarde oportunidade de criticar o positivismo (que se apresenta como uma completa filosofia das ciências) sob outros aspectos. No momento, formularemos apenas algumas observações:

a) a lei dos três estados se apresenta como uma lei do espírito, como uma espécie de fatalidade que seu autor não explica (seria contrário ao “espírito” do seu sistema buscar o por quê delas, sua explicação). Comte não a relaciona de modo satisfatório com a atividade humana, com as relações mais simples e fundamentais do homem com a natureza. Essa “lei” se conserva no ar: é uma “lei” metafísica e idealista.

Se houve modificação no modo humano de considerar a natureza, essa modificação foi adquirida; foi justificada pelos seus resultados práticos; fundou-se na ciência e no efetivo poder do homem sobre a natureza.

Débil diante da natureza, o primitivo — como diz Comte — inventou efetivamente “explicações” fantasistas (e imaginativas) para os fenômenos; essas explicações desapareceram porque a natureza já não mais nos aparece, ou nos aparece em menos grau, como algo esmagador e hostil.

b) Quanto mais se estuda o “pensamento primitivo”, tanto mais se constata que ele envolve certos germes de um pensamento racional; e inclusive, num certo sentido, contém ele elementos superiores ao pensamento das épocas subsequentes. Os sociólogos e etnógrafos, depois de Comte, e em parte inspirados por ele, afirma que todos os primitivos têm a impressão de uma potência obscura, onipresente, que consideram sob um ângulo religioso (o “mana”). Sem entrar no exame detalhado da questão, observemos que essa imagem envolve um sentimento direto e profundo da natureza, de sua unidade. Quando o pensamento se torna mais diferenciado e também mais abstrato, mais analítico, esse sentimento espontâneo se perde. Subsiste apenas na arte; e é essa a razão por que a poesia, e mesmo as artes em geral, retornam obstinadamente ao primitivo (ou à infância que, em certo sentido, é o que em nós corresponde à vida primitiva). A consciência primitiva, portanto, comporta elementos válidos, os quais, precisamente hoje, são recolhidos por nós, embora superados, depurados de suas interpretações místicas, elevados a um nível superior.

c) Do mesmo modo, a época que Comte chamou de “metafísica”, a época da abstração, foi também aquela na qual foram inventados os instrumentos do pensamento e, em particular, a lógica (de Aristóteles e Hegel); não pode assim ser condenado em bloco.

d) Nossa época está longe de ser exclusivamente científica. Contínua penetrada por elementos de pensamento teológico e metafísico, que não podem ser tratados — como diz a escola sociológica — como simples sobrevivências[1]. Essas pretensas “sobrevivências” devem conservar um sentido e, por conseguinte, uma relação com a vida real; manifestam-se não apenas na vida cotidiana, mas nas ciências ou pretensas ciências.

Quando, durante anos, e ainda há bem pouco tempo, os economistas investigavam o papel do ouro na economia política, reunindo-se inutilmente em congressos e comissões internacionais com o objetivo de regulamentar as questões relativas à distribuição do ouro no mundo, o ouro aparecia como uma coisa dotada de poder sobre os homens. Essa coisa, esse produto humano, escapa ao controle e à razão dos homens! Os homens modernos e os economistas assumem diante do ouro a atitude do primitivo diante de um fetiche. Atribuem ao ouro um poder  independente deles; e esse fetiche, que não é mais que o produto dos homens, reina efetivamente sobre eles e adquire esse poder.

Em outras palavras: em todo setor não dominado, como, por exemplo, na economia, a atitude “teológica” ou “metafísica” subsiste; particularmente no setor social onde o homem ainda não domina suas próprias obras.

e) O devir da ciência é um devir social. A ciência matemática nasceu no Egito, na Jônia, na Grécia, antes mesmo do início da era metafísica; e isso por razões precisas, sobre as quais voltaremos a falar.

A lei dos três estados, portanto, representa uma tentativa interessante para colocar em termos históricos e sociais o “problema” do conhecimento; mas não é mais que uma primeira tentativa, muito insuficiente. Em sua brevidade, além do mais infecunda, a lei de Comte não pode substituir uma história precisa do conhecimento, nos diferentes povos e nas diferentes culturas que se sucederam.

A ciência na Idade Média admitia o horror da natureza pelo vazio. explicando assim, a seu modo, o fato já conhecido de que os líquidos, quando aspirados, sobem pelos tubos. E procedia assim por motivos teológicos: o vazio parecia indigno da potência divina. Num certo momento, nas condições da civilização urbana mais aperfeiçoada da época, os encarregados das fontes em Florença viram-se diante de um problema prático: bombear a água a uma altura bastante grande. Constataram que a água no interior das bombas jamais  ultrapassava um certo nível; acima, o vazio. Esse fato entrava em contradição com o princípio então admitido; e essa contradição, que tinha de ser resolvida, estimulou as reflexões de Torricelli. (Descoberta da pressão atmosférica e do barômetro.)

Esse exemplo simples mostra que se exerce uma atividade propriamente intelectual (condicionada historicamente) sobre dados práticos, sociais, experimentais. Essa atividade intelectual é uma reflexão que assume forma determinada e, por conseguinte, metódica e lógica.

Quando Kepler começou seu estudo dos movimentos planetários, imaginava que cada planeta era dirigido por um anjo, “angelus rector”; em sua opinião, a figura descrita sob essa direção angélica devia ser tão bela e tão simples quanto possível. Portanto, tentou inicialmente situar as posições observadas sobre círculos, mas fracassou. Depois, tentou a elipse; foi bem sucedido e houve, nesse sucesso, uma parcela de sorte. Na história do conhecimento (os exemplos poderiam ser multiplicados), a atitude “teológica” — embora em contradição com a atitude científica — nem sempre impede as descobertas, pelo menos em escala individual. (Socialmente, o problema se coloca de modo inteiramente diverso.) E isso porque existe, em toda descoberta, ao mesmo tempo que um processo de pesquisa intelectual e lógica, uma parcela de imaginação e de fantasia individual, uma parcela de gênio individual, que pôde em certos casos ser estimulada pelos temas ou problemas teológicos ou metafísicos[2].

O positivismo de Comte, portanto, simplifica exageradamente a história complexa, acidentada, multiforme, do conhecimento. Em particular, subestima a importância do instrumento, do método intelectual forjado pelos metafísicos: a lógica.

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Notas:
[1] Lévy-Bruhl, Morale et science des mouers, p. 273.
[2] Já que o materialismo dialético foi formulado nos séculos XIX e XX seria evidentemente absurdo exigir de cientistas anteriores, e mesmo daqueles de nossos dias, que raciocinassem segundo o materialismo dialético!
Por isso, os exemplos de descobertas feitas em nome de hipóteses místicas, teológicas ou metafísicas, poderiam ser multiplicados ao infinito. (Citemos, por exemplo, Maupertius e o princípio da menor ação; as descobertas de Flourens, de Claude Bernard, de Pasteur, bem como aquelas de Einstein, que se inspiravam no empiriocriticismo e em Mach, etc. etc.) (p. 254).
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LEFEBVRE, H. Lógica formal. Lógica dialética. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 71-74.
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quarta-feira, 28 de agosto de 2024

ARTE REALISTA| Aplicando nos fundos

Sinopse:
É app, é juros, é o fim do dinheiro
É o gerente negando
O empréstimo inteiro
É o consignado
O cartão sem limite
É o jovem chorando,
O Serasa que apite
É o fanzoca do banco
Sem investimento
É o pix, é o LIS
É o financiamento
É a taxa Selic
É o Trader Youtuber
É o limite estourando
Com delivery e Uber
São as taxas fixadas
Bloqueando o cartão
É promessa de dívida
Sem negociação
(Porta dos Fundos)

Aplicando nos fundos (farsa, BRA, 2024), de Luanne Araujo, Rodrigo Magal e Vini Videla. (Compilado)

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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

ARTE REALISTA| Porta gourmet

Sinopse: Bienvenue à la Porte dos Fundos para uma experiência elegante e gastronômica com os melhores chefs da culinária mundial.

Porta gourmet (farsa, BRA, 2024), de Rodrigo Magal, Vini Videla e Rodrigo Van Der Put. (Compilado)

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sábado, 27 de julho de 2024

ARTE REALISTA| Aceita currículo?

 

Sinopse: Embora ainda esteja empregado, aviso a todos que estou Open To Work! É bom estar ligado no mercado, analisando oportunidades, fazendo aquele belo networking. Se um dia meu ciclo aqui se encerrar, ou melhor, se encerrarem o meu ciclo, terei que encontrar outro lugar para levar todo o meu aprendizado. Atualmente, encarar o mercado de trabalho é o equivalente moderno a enfrentar os 300 de Esparta: muitos candidatos para uma vaga arrombada, PJ, com benefícios incríveis como "ambiente competitivo" e um salário de R$ 1.500,00. Enquanto cobram mentalidade de chefe, ofereço apenas uma mentalidade de estagiário. Mas sei fazer café! (Porta dos Fundos)

Aceita currículo? (farsa, BRA, 2024), de Vini Videla, Bianca Frossart e Rodrigo Van Der Put. (Compilado)

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