Alguns filósofos colocaram de modo simultaneamente histórico e social o “problema” do conhecimento, rejeitando ao mesmo tempo a metafísica. É o caso, notadamente, de Auguste Comte.
Em seu
Cours de philosophie positive (1842), ele formulou a célebre pretensa lei dos “três estados”. O espírito humano, segundo Comte, atravessou inicialmente uma etapa
teológica, na qual atribui os fenômenos a causas sobrenaturais, ou seja, à ação de poderes arbitrários análogos à personalidade humana (espíritos mais ou menos fantasistas e conscientes, favoráveis ou cruéis). Em seguida, teria surgido o período
metafísico, que explica os fatos naturais através de abstrações, de qualidades ocultas tais como a “pedridade” da pedra, a “virtude dormitiva” do ópio, o horror da natureza pelo vazio, a qualidade gravitacional dos corpos pesados, etc.
Finalmente, na era
positiva ou
científica, à qual chegamos, o espírito renuncia a conhecer as causas, estuda o “como” e não o “por quê” dos fenômenos e se contenta em descobrir as relações constantes e regulares entre esses fenômenos, suas
leis.
Teremos mais tarde oportunidade de criticar o positivismo (que se apresenta como uma completa filosofia das ciências) sob outros aspectos. No momento, formularemos apenas algumas observações:
a) a lei dos três estados se apresenta como uma lei do espírito, como uma espécie de fatalidade que seu autor não explica (seria contrário ao “espírito” do seu sistema buscar o por quê delas, sua explicação). Comte não a relaciona de modo satisfatório com a atividade humana, com as relações mais simples e fundamentais do homem com a natureza.
Essa “lei” se conserva no ar: é uma “lei” metafísica e idealista.
Se houve modificação no modo humano de considerar a natureza, essa modificação foi adquirida; foi justificada pelos seus resultados práticos; fundou-se na ciência e no efetivo poder do homem sobre a natureza.
Débil diante da natureza, o primitivo — como diz Comte — inventou efetivamente “explicações” fantasistas (e imaginativas) para os fenômenos; essas explicações desapareceram porque a natureza já não mais nos aparece, ou nos aparece em menos grau, como algo esmagador e hostil.
b) Quanto mais se estuda o “pensamento primitivo”, tanto mais se constata que ele envolve certos germes de um pensamento racional; e inclusive, num certo sentido, contém ele elementos superiores ao pensamento das épocas subsequentes. Os sociólogos e etnógrafos, depois de Comte, e em parte inspirados por ele, afirma que todos os primitivos têm a impressão de uma potência obscura, onipresente, que consideram sob um ângulo religioso (o “mana”). Sem entrar no exame detalhado da questão, observemos que essa imagem envolve um sentimento direto e profundo da natureza, de sua unidade. Quando o pensamento se torna mais diferenciado e também mais abstrato, mais analítico, esse sentimento espontâneo se perde. Subsiste apenas na arte; e é essa a razão por que a poesia, e mesmo as artes em geral, retornam obstinadamente ao primitivo (ou à infância que, em certo sentido, é o que em nós corresponde à vida primitiva). A consciência primitiva, portanto, comporta elementos válidos, os quais, precisamente hoje, são recolhidos por nós, embora superados, depurados de suas interpretações místicas, elevados a um nível superior.
c) Do mesmo modo, a época que Comte chamou de “metafísica”, a época da abstração, foi também aquela na qual foram inventados os instrumentos do pensamento e, em particular, a lógica (de Aristóteles e Hegel); não pode assim ser condenado em bloco.
d) Nossa época está longe de ser exclusivamente científica. Contínua penetrada por elementos de pensamento teológico e metafísico, que não podem ser tratados — como diz a escola sociológica — como simples sobrevivências[1]. Essas pretensas “sobrevivências” devem conservar um sentido e, por conseguinte, uma relação com a vida real; manifestam-se não apenas na vida cotidiana, mas nas ciências ou pretensas ciências.
Quando, durante anos, e ainda há bem pouco tempo, os economistas investigavam o papel do ouro na economia política, reunindo-se inutilmente em congressos e comissões internacionais com o objetivo de regulamentar as questões relativas à distribuição do ouro no mundo, o ouro aparecia como uma coisa dotada de poder sobre os homens. Essa coisa, esse produto humano, escapa ao controle e à razão dos homens! Os homens modernos e os economistas assumem diante do ouro a atitude do primitivo diante de um fetiche. Atribuem ao ouro um poder independente deles; e esse fetiche, que não é mais que o produto dos homens, reina efetivamente sobre eles e adquire esse poder.
Em outras palavras: em todo setor não dominado, como, por exemplo, na economia, a atitude “teológica” ou “metafísica” subsiste; particularmente no setor social onde o homem ainda não domina suas próprias obras.
e) O devir da ciência é um devir social. A ciência matemática nasceu no Egito, na Jônia, na Grécia, antes mesmo do início da era metafísica; e isso por razões precisas, sobre as quais voltaremos a falar.
A lei dos três estados, portanto, representa uma tentativa interessante para colocar em termos históricos e sociais o “problema” do conhecimento; mas não é mais que uma primeira tentativa, muito insuficiente. Em sua brevidade, além do mais infecunda, a lei de Comte não pode substituir uma história precisa do conhecimento, nos diferentes povos e nas diferentes culturas que se sucederam.
A ciência na Idade Média admitia o horror da natureza pelo vazio. explicando assim, a seu modo, o fato já conhecido de que os líquidos, quando aspirados, sobem pelos tubos. E procedia assim por motivos teológicos: o vazio parecia indigno da potência divina. Num certo momento, nas condições da civilização urbana mais aperfeiçoada da época, os encarregados das fontes em Florença viram-se diante de um problema prático: bombear a água a uma altura bastante grande. Constataram que a água no interior das bombas jamais ultrapassava um certo nível; acima, o vazio. Esse fato entrava em contradição com o princípio então admitido; e essa contradição, que tinha de ser resolvida, estimulou as reflexões de Torricelli. (Descoberta da pressão atmosférica e do barômetro.)
Esse exemplo simples mostra que se exerce uma atividade propriamente intelectual (condicionada historicamente) sobre dados práticos, sociais, experimentais. Essa atividade intelectual é uma reflexão que assume forma determinada e, por conseguinte, metódica e lógica.
Quando Kepler começou seu estudo dos movimentos planetários, imaginava que cada planeta era dirigido por um anjo, “angelus rector”; em sua opinião, a figura descrita sob essa direção angélica devia ser tão bela e tão simples quanto possível. Portanto, tentou inicialmente situar as posições observadas sobre círculos, mas fracassou. Depois, tentou a elipse; foi bem sucedido e houve, nesse sucesso, uma parcela de sorte. Na história do conhecimento (os exemplos poderiam ser multiplicados), a atitude “teológica” — embora em contradição com a atitude científica — nem sempre impede as descobertas, pelo menos em escala individual. (Socialmente, o problema se coloca de modo inteiramente diverso.) E isso porque existe, em toda descoberta, ao mesmo tempo que um processo de pesquisa intelectual e lógica, uma parcela de imaginação e de fantasia individual, uma parcela de gênio individual, que pôde em certos casos ser estimulada pelos temas ou problemas teológicos ou metafísicos[2].
O positivismo de Comte, portanto, simplifica exageradamente a história complexa, acidentada, multiforme, do conhecimento. Em particular, subestima a importância do instrumento, do método intelectual forjado pelos metafísicos: a lógica.
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Notas:
[1] Lévy-Bruhl, Morale et science des mouers, p. 273.
[2] Já que o materialismo dialético foi formulado nos séculos XIX e XX seria evidentemente absurdo exigir de cientistas anteriores, e mesmo daqueles de nossos dias, que raciocinassem segundo o materialismo dialético!
Por isso, os exemplos de descobertas feitas em nome de hipóteses místicas, teológicas ou metafísicas, poderiam ser multiplicados ao infinito. (Citemos, por exemplo, Maupertius e o princípio da menor ação; as descobertas de Flourens, de Claude Bernard, de Pasteur, bem como aquelas de Einstein, que se inspiravam no empiriocriticismo e em Mach, etc. etc.) (p. 254).
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LEFEBVRE, H. Lógica formal. Lógica dialética. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 71-74.
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